quarta-feira, 31 de março de 2010

Ser Brotinho


“Eventualmente, ser brotinho é
como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho,
de tão amadurecida em todo o seu ser.”
(Paulo Mendes Campos)


O texto, Ser brotinho é do mineiro Paulo Mendes Campos. Adoro esta crônica. Todos nós devíamos manter esta essência. Ser brotinho. Talvez seja algo que o tempo acabe nos tirando. Talvez, pois não devemos permitir. Esta semana, meio que sem querer, deparei-me com ela. Faz tempo que a li pela última vez. Então, para os amigos que tiverem paciência... Espero que gostem; como eu...

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S
er brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Proposta Indecente...


Procuro esta cena há muito tempo. Talvez, há mais de um ano. Não conseguia encontrar da maneira que gostaria. Encontrei dublada em italiano e em espanhol. Não servia. Deveria ser perfeita. Talvez, esta seja a cena na qual demorarei mais. Me alongarei um pouco ao descrevê-la e explicar as razões de ela estar em minhas reminiscências.
O filme é Proposta Indecente. Assistimos a este filme, no cinema, por volta de 1993. Desde então, adotamos o diálogo que é reproduzido no final do filme em nossas vidas. Esta era a maneira que usávamos para dizer que nos amávamos. Não lembro um dia que ele não tenha acontecido. Era assim também que nossas brigas terminavam. Já fazia parte do nosso dia-a-dia. Assim como no filme, servia para nos lembrarmos que apesar de tudo o que passamos ou poderíamos passar, nosso amor era para sempre. Independentemente de tudo. A cena, para nós, tornou-se real. Era nossa. O filme, uma metáfora.
Para quem ainda não assistiu ao filme, aviso: a cena é o final do filme. No dia 10 de março, precisava ir embora. Foi assim que nos despedimos. Este foi nosso último diálogo. Nossas últimas palavras. É assim que o filme termina. Foi assim que terminamos.



domingo, 28 de março de 2010

Bons amigos...


Uma quinta feira diferente. Uma quinta feira como estava precisando. Bons vinhos, boa comida e principalmente bons amigos. Sempre procuramos harmonizar o vinho com a comida. É como deve ser feito. Nesta semana, fizemos mais. Harmonizamos as pessoas. Tudo foi perfeito. Com dois convidados, o Fábio (Não resistiu à primeira semana e voltou) e o Dener (Irmão que sempre teve seu lugar reservado à mesa). Ótima noite. Vou esperar outras...

A noite começou com um bom vinho e muita conversa. O tinto The Wolftrap Blend 2008. O primeiro prato da noite rendeu muitas histórias ao longo da sexta-feira. Filé de Saint Peter com molho de vinho branco e alcaparras e arroz branco com cheiro verde. A harmonização foi feita com o vinho chileno Consiño Macul Doña Isidora Riesling 2006.



Na sequência um bife ancho grelhado à perfeição e mais nada. Simples assim. O vinho que acompanhou foi o argentino Bisonte Reserva Malbec 2007.



Para terminar, claro, a sobremesa: sorvete com bananas flambadas. Harmonizada com um excelente vinho de sobremesa, o Salton Intenso elaborado com uvas chardonnay.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Diário dele e diário dela....


"Há duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos homens."
( Albert Einstein )

Uma amiga minha diria: Que conversa de homenzinho... É verdade. Concordo com ela. Vou publicá-la aqui para descontrairmos um pouco. Pelo menos nós, homenzinhos...

Diário dela:

No domingo a noite ele estava estranho. Saímos e fomos até um bar para tomar uma cerveja. A conversa não estava muito animada, de maneira que pensei em irmos a um lugar mais íntimo.

Fomos a um restaurante e ele ainda agindo de modo estranho. Perguntei o que era, e ele disse que nada, que não era eu.

Mas não fiquei muito convencida. No caminho para casa, no carro, disse-lhe que o amava muito e de toda sua importância. Ele limitou-se a passar o braço por cima dos meus ombros.

Finalmente chegamos em casa e eu já estava pensando se ele iria me deixar! Por isso tentei faze-lo falar, mas sem me dar muita bola ligou a televisão, e sentou-se com um olhar distante que parecia estar me dizendo que estava tudo acabado entre nós. Por fim, embora relutante, disse que ia me deitar.

Mais ou menos 10 minutos ele veio se deitar também e, para minha surpresa, correspondeu aos meus avanços.

Fizemos amor. Mas depois ele ainda parecia muito distraído e adormeceu. Comecei a chorar, chorar, chorar e chorei até adormecer. Já não sei o que fazer.
Tenho quase certeza que ele tem alguém e que a minha vida é um autêntico desastre.

Diário dele:

O meu time perdeu. Fiquei chateado a noite toda. Pelo menos dei umazinha.
Mas ainda tô chateado... Time de bosta...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Se pudesse...


Já faz alguns dias que escrevi este texto. Relutei. Relutei muito se devia ou não colocá-lo aqui. Tinha medo de estar sendo melancólico demais. Quem me conhece sabe que não sou assim. Então, fui ouvir algumas pessoas que, para mim, são muito importantes. Responderam de forma unânime que deveria seguir meu coração. Resolvi então, publicá-lo para não ficar perdido em uma pasta qualquer no computador. As palavras expressam os meus sentimentos mais sinceros de como passei pelos últimos quatro meses. Amigos me desculpem. Preciso falar. Não consigo. Então, escrevo.

Se pudesse...

Não conheço mais o lugar em que vivo. É assim que me sinto hoje. Meu mundo está diferente. Preciso descobri-lo e aprender a viver nele. Sinto sua falta. Sinto falta de um pedaço de mim. Ficou um vazio. É vazio. Você está em cada coisa que faço. Em cada coisa que vejo. Em cada música que gosto. Não conheço mais o mundo sem você. A dor não é somente por tê-la perdido. Não. Dói muito mais ter visto você sofrer. Acho que nunca vou conseguir esquecer. Estas lembranças ainda me torcem o estômago. Primeiro te vi com medo. Então, tentei mostrar que não sentia nenhum. Depois te vi com dor e a única coisa que podia fazer era te abraçar. Onde as ruas não têm nome estará em mim para sempre. Você parou de sorrir e eu tentei virar um palhaço. Levei você pela mão. Empurrei a sua cadeira. Por último te peguei no colo. Ainda sinto seus braços em torno de mim. Que falta você faz. Que dor estas lembranças trazem. O que é pior que esta impotência? Se pudesse, por você, faria o mundo girar ao contrário. Se pudesse... Mas não era possível. Só podia como você falava, ser sua fortaleza, seu porto seguro. Agora há um imenso silêncio. Estou em silêncio. Sempre perguntou se éramos os últimos dos moicanos. Seremos para sempre. Aceitar não é entender. Se conformar não é aceitar. Aceito. Não me conformo. Não quero. São minhas reminiscências. É assim que me sinto. Já me disseram que o tempo irá ajudar. Novamente o tempo. Onde estava quando clamei por ele? Não quero mais esperá-lo. Escrevi aqui, certa vez, sobre Lance Armstrong. Para ele, "a dor é temporária. Ela pode durar um minuto, ou uma hora, ou um dia, ou um ano, mas finalmente ela acabará e alguma outra coisa tomará o seu lugar. Se eu paro, no entanto, ela dura para sempre”. Então, não ficarei esperando pelo tempo. Vou atrás dele. Minha coragem está naqueles que estão ao meu lado. Minha força é você. Sempre foi.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Fernão Capelo Gaivota


A idéia veio de uma mania minha. Quem me conhece sabe que não apenas sou um leitor inveterado como também possuo muitos livros. Invariavelmente tenho como costume abrir um livro em uma página qualquer e ler o seu conteúdo. Não me pergunte a razão. Não existe nenhuma. Por motivos óbvios, adotarei sempre a página 72 de qualquer livro para transcrever seu conteúdo aqui no blog.. Talvez a idéia não seja das melhores, mas vamos ver para onde ela nos levará. Não escolherei o conteúdo. Pegarei um livro e abrirei na página 72. Simples assim. Vejamos o que acontece.

Do livro: Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach

“A dúzia de gaivotas que treinava junto à costa veio ao seu encontro, sem pronunciar uma palavra. Sentiu apenas que era bem vindo e que esta era a sua casa. Tinha sido um grande dia para ele, um dia cuja aurora já não recordava.
Dispôs-se a aterrar na praia batendo as asas de modo a ficar suspenso a dois centímetros do chão e deixando-se cair levemente na areia. As outras gaivotas também aterraram, mas nenhuma delas movem uma única pena. Esvoaçaram no vento com as asas brilhantes bem abertas...” (P.72)


O vídeo a seguir é do filme Fernão Capelo Gaivota.
A música interpretada por Neil Diamond



domingo, 21 de março de 2010

Muito além do diploma...


Amigos leitores destas reminiscências, correndo o risco de me tornar repetitivo, ainda estou fazendo alguns agradecimentos. Como muitos amigos e familiares participaram de todo o processo ao meu lado, acho justo dividir minhas palavras. O e-mail abaixo foi enviado à Dra Veridiana em 20/03/2010.

Carl G. Jung disse que "Não é o diploma médico, mas a qualidade humana, o decisivo." Escrevo para falar de uma médica. Ou melhor, de uma pessoa com uma qualidade humana que vai muito além de um diploma.
Quando, pela primeira vez, entramos no consultório da Dra. Veridiana já sabia que não encontraria ali uma cura. Portanto; não estava atrás de esperança. Estava atrás de tempo. O próprio tempo se encarregou de mostrar-me que aos cuidados dela, encontraríamos muito mais do que uma fração de tempo. Encontraríamos alguém disposta a nos receber sempre com um sorriso e uma palavra de incentivo. Mesmo quando não havia motivos para sorrir.
A Dra. Veridiana é o tipo de médica que está sempre com a porta aberta. Certa vez, ouvi de uma funcionária que ela era a queridinha dos funcionários e dos pacientes. Fácil entender. Na situação em que nos encontrávamos o diploma médico não possui qualquer valor se o ser humano que o possui não aliar a ele os valores humanos encontrados na Dra. Veridiana.
Escrevo então, para agradecê-la. Não por cada vez que usou seu carimbo em uma receita médica ou pedido de exame. Mas, por cada sorriso. Passei por tudo isso muito de perto. O suficiente para nunca mais pensar em viver isso novamente. Mas, se um dia preciso for, será a Dra. Veridiana que gostaria de ter como médica ao meu lado. Agradeço em nome de toda a minha família. Muitos não tiveram a oportunidade de conhecê-la. Não pessoalmente. Agradeço também em nome da minha esposa. A cada dúvida ou dificuldade que aparecia somente se acalmava após falar com sua médica. Para a Dra. Veridiana, "Se você não pode mudar seu destino, deve mudar sua atitude!" (Amy Tan)

Veridiana Pires de Camargo é médica Oncologista no ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo)