sábado, 4 de novembro de 2017

Quase – de Sarah Westphal


Tudo que eu queria falar. Sabe quando você gostaria de falar muita coisa? Às vezes, todas essas palavras que estão engasgadas acabam aparecendo de uma maneira ou de outra. Sem que você mesmo precise dizê-las. Tudo que eu queria falar, alguém falou...
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Quase – de Sarah Westphal

“O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma,
apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si”.

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

domingo, 22 de outubro de 2017

The Joshua Tree Tour - U2


"Seja forte e destemido, porque farás este povo
 herdar a terra que a seus pais jurei dar-lhes." 
(Josué, 1:6, KJV)



           É coisa de fã. Não poderia ser diferente. Mesmo que você seja apenas fã de música. Nesse caso já é suficiente. Mas no meu, sou também da banda. O que torna tudo mais espetacular.
            Eu já era fã do U2 quando em 1987 eles lançaram The Joshua Tree. Para muitos o melhor álbum da banda. O meu preferido? Não consigo apontar um. Tenho três preferidos. Coisa de fã. E agora, 30 anos depois, tenho a oportunidade de assistir pela quarta (ou seria quinta? *) um show do U2. Este em comemoração ao aniversário de lançamento do álbum.
            Joshua Tree, a árvore assim batizada cujo os ramos remetem ao profeta do Velho Testamento Josué, levantando os braços para orar. Para quem já assistiu ao show e conhece as características do U2, fica fácil associar o álbum e a nova turnê com o “mundo atual”. Como o Blog Sombra e árvores altas explica, “em todo The Joshua Tree, somos confrontados com a desolação de uma paisagem deserta, imensa, atemporal; e com uma nação de progresso e opressores, em um lugar onde sonhos e violência coexistem”. Pois é. O álbum completa 30 anos...
O show começa como se uma modesta banda, com os quatro integrantes do U2 entrando no palco, sem nenhum aparato tecnológico, estivessem em War Tour ou The Unforgettable Fire Tour, ainda no início dos anos 80 e então a inconfundível batida de Sunday Bloody Sunday começa a ecoar no Morumbi. New Year´s Day, Bad e Pride... e, um salto de trinta anos e um gigantesco telão de alta resolução ilumina o estádio e os acordes de Where the Streets Have no Name são ouvidos anunciando o início da setlist das canções do álbum The Joshua Tree (1987) interpretado na íntegra e em ordem.
            Para este fã, o resto são apenas sentimentos e não palavras. De alguma maneira, todo mundo viu. Em contraponto ao telão, inúmeras telinhas faziam questão de registrar tudo e o resto a mídia social contou...
            
* Assisti um deles duas vezes.

domingo, 8 de outubro de 2017

Raízes do tempo



Dizia Ovidio que "... o fogo incipiente, apaga com pouca água" 

              Um dia decidi me dar por vencido: renunciei ao meu trabalho, à minha relação e à minha vida. Fui ao bosque para falar com um ancião que, segundo diziam, era muito sábio.

– Poderia me dar uma boa razão para não me dar por vencido? – perguntei.

              Com toda calma e paciência, muito provavelmente resultado de toda sua sabedoria adquirida através dos anos ele respondeu:

– Olhe ao seu redor, está vendo a samambaia e o bambu?

– Sim – respondi sem entender. O que há de mais em uma simples samambaia e um punhado de bambus? O ancião, percebendo meus pensamentos continuou:

– Quando plantei as sementes da samambaia e do bambu, cuidei de ambas muito bem. A samambaia cresceu rapidamente. O seu verde brilhante cobria o chão. Mas nada saiu da semente do bambu. Contudo, não renunciei ao bambu.

No segundo ano a samambaia cresceu mais brilhante e abundante e, novamente, nada cresceu da semente de bambu. Mas não desisti do bambu.

No terceiro ano, ainda nada brotou da semente de bambu. Mas não renunciei ao bambu.

No quarto ano, novamente, nada brotou da semente de bambu e mesmo assim não desisti dele.

No quinto ano um pequeno broto de bambu apareceu no solo. Em comparação à samambaia era aparentemente muito pequeno e insignificante.

Mais um ano se passou e então, no sexto ano, o bambu cresceu mais de 20 metros de altura. Tinham se passado já cinco anos lançando raízes que o suportassem. Aquelas raízes o fizeram forte e lhe deram o que precisava para sobreviver.


Você sabia que durante todo esse tempo o bambu esteve, na verdade, lançando raízes?

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Cinema Paradiso


            Há tempos não posto aqui um Cena Reminiscente. Há tempos não faço muita coisa. Não importa. Para compensar escolhi uma de minhas cenas preferidas. Sempre me emociono ao assisti-la. Não apenas em virtude do filme e da história. Tenho muitas recordações com ele e especialmente com a belíssima trilha sonora do gênio Morricone. Cinema Paradiso, não é apenas um filme. É uma poesia e a cena escolhida, para quem assistiu, sintetiza toda emoção retratada do filme.
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sábado, 23 de setembro de 2017

O pior cego...



“Somos protegidos por filtros que atenuam 
todos os sinais que nos vêm do exterior”. 
(Ramón Sender)
             
Os sinais estão sempre lá. Sempre podemos vê-los. E é exatamente o que fazemos. Mesmo que seja lá no fundo, no mais escondido e trancado porão da nossa consciência. Acontece que, muitas vezes, ou na maioria delas, preferimos fingir não compreendê-los. Somos cegos. Ou fingimos ser. Preferimos assim. Triste realidade do ser humano. Você também. Não se engane. Com você não é diferente. Falo por todos nós. Julgar é fácil. Falar que, com a gente seria diferente, é a forma mais covarde de julgar e sentenciar.  Mas, basta os sinais começarem a aparecer em nossas vidas para olharmos para o outro lado. É muito mais fácil acreditar em nossa verdade. Mesmo que ela seja uma mentira.
É exatamente dessa conflagração em nossa consciência que surge a discrepância entre o discurso e a atitude. O ser humano é mesmo confuso. Os sinais não deixam dúvidas. É sempre mais fácil escolher o caminho mais tranquilo. Sem tempestades. Quem não escolheria? Afinal, enxergar a verdade, exatamente como ela é, nos obrigaria a agir... Dante Alighieri, em sua obra A divina comédia escreveu sobre o inferno, o purgatório e o paraíso. Para o escritor e poeta italiano, “O mundo é cego, e tu vens exatamente dele...”

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Parte 41 – Quadragésimo primeiro contato



            Ainda bem. Mas precisa acreditar, as coisas não são simples como eu gostaria ou como você acredita ser. A mera possibilidade de poder fazer estas cartas chegarem até você já é algo extraordinário. Preciso fazer uma confissão. Talvez já tenha percebido antes. Durante todo este tempo, não consegui encontrar uma maneira de tornar essa experiência algo concreto. Tenho medo. Não se espante. Sei que durante a maior parte do tempo, foi exatamente sobre o medo o enfoque das minhas palavras dirigidas a você. Mesmo sabendo e, melhor do que ninguém, eu sei, que o medo pouco significa para você. Não precisa ficar preocupado. Alguns sentimentos aparecem com o tempo. E a idade. O fato de eu sentir medo, não significa que depois de tantos anos você se tornará um cagão. Desculpe o linguajar, não costumo falar assim. Estou um pouco irritado. Deve ser isso.
            Fico me perguntando até onde minhas palavras podem interferir em suas decisões. Ou pior, em suas atitudes. Já imaginou? Alterar tudo? Estas cartas referem-se ao seu futuro. Já pensou nisso? Acontece, que seu futuro é meu passado. E verdade. Como sempre, é confuso. Mas, pense um pouco sobre isso. Eu tenho pensado muito. Como já deve estar entendendo, ainda não cheguei à uma conclusão. Talvez nunca chegue. O problema? Dependendo de como as coisas andam por aqui, fico tentado a mudar tudo por aí. Não importa. Não é culpa sua. Pelo menos, não toda. Tem sua parcela. Aceite. Não comece a choramingar.
            Não há nada errado com arrependimentos. O que está feito, não pode ser mudado não é mesmo? Não? Percebe o dilema? Com a possibilidade de estarmos em contato, muda completamente a perspectiva. Mas qual o preço? Ou melhor, as consequências. Talvez, o que precise de mudança não dependa de passado e sim de futuro.

sábado, 12 de agosto de 2017

Quando nada é suficiente...



Um açougueiro estava tomando conta de sua loja e ficou realmente surpreso quando um cachorro entrou. Ele espantou o cachorro, mas logo em seguida ele voltou. Novamente ele tentou espantá-lo quando percebeu que trazia um bilhete na boca. Pegou o bilhete e leu: “Pode me mandar 12 salsichas e uma perna de carneiro, por favor”. O cachorro trazia dinheiro na boca também. Ele olhou e viu que dentro da boca do cachorro havia uma nota de R$ 50,00.
Então ele pegou o dinheiro e pôs as salsichas e a perna de carneiro na boca do cachorro. O açougueiro ficou impressionado e como já era mesmo hora de fechar o açougue, ele decidiu fechar e seguir o cachorro. E foi o que fez. O cachorro começou a descer a rua e, quando chegou ao cruzamento, depositou a bolsa no chão, pulou e apertou o botão para fechar o sinal. Esperou pacientemente com o saco na boca que o sinal fechasse e ele pudesse atravessar. Cruzou a rua e caminhou até uma parada de ônibus. O açougueiro continuava seguindo-o.
No ponto de ônibus o cão olhou para a tabela de horário e então sentou no banco para esperar o ônibus. Quando o ônibus chegou o cachorro foi até a frente para conferir o número e voltou para o seu lugar. Outro ônibus chegou e ele tornou a olhar, viu que aquele era o ônibus certo e entrou. O açougueiro, boquiaberto, seguiu o cão. De repente o cachorro se levantou e ficou em pé nas duas patas traseiras e apertou o botão para saltar, tudo isso com as compras ainda na boca.
O açougueiro e o cão foram caminhando pela rua quando o cachorro parou em uma casa, colocando as compras na calçada. Ele voltou um pouco, correu e se atirou contra a porta. Tornou a fazer isso e como ninguém respondeu na casa, o cachorro a circundou, pulou um muro baixo e foi até a janela. Começou a bater com a cabeça no vidro várias vezes. Então, caminhou de volta para a porta quando um sujeito enorme a abriu e começou a espancar o cachorro. O açougueiro correu até o homem e o impediu dizendo:
– Por Deus do céu homem, o que você está fazendo? O seu cachorro é um gênio!
 O homem respondeu:

– Um gênio? Já é a segunda vez esta semana que este cachorro estúpido esquece a chave.